A prece de um homem moribundo
Ah, minha linda Sofia, mulher de seios fartos, belas curvas, me inebria, faz dormir, sonhar…ah, Sofia.
Queria ao menos na eternidade sentir de novo o perfume dos teus cabelos dourados, o teu cheiro de manhã, a tormenta da tua voz no canto da minha mente…ah , Sofia.
Quando os homens me viraram as costas, teu colo quente me abrigou das unhas agudas do destino, teus braços longos e tenros derramavam em mim a cor do alvorecer, um vermelho vestido de azul, uma cor áspera, massageava todo o meu corpo…ah, Sofia.
Um dia pensei em fugir contigo, busquei nos confins do mundo nossa morada, pobre de mim, hoje bebo de ti na prisão, as pedras frias me dizem sempre não, um não que jamais ouvi de ti…ah, Sofia.
Envelheço, apodreço e tu remoças, já deves estar enamorada de um outro alguém, no entanto, me visitas, será que faço jus a tal fortuna?…Ah, Sofia.
Vi os reinados do mundo e os seus reis, vi os mares do mundo e suas tormentas, as distâncias da terra e seus caminhos, vi as guerras e seus guerreiros, amores, desejos alheios, e agora, que a vida me falta no peito e a visão se distrai com a escuridão, só me lembro de ti….minha linda Sofia…Ah minha linda sofia.
Texto; Professor Edison, inspirado no livro ” A consolação da Filosofia” de Boécio
"Os Guindastes do Porto"
Por onde chega o novo, por onde eu vejo o novo, o porto.
A instância final, onde acaba a cidade, onde me ligo com o outro lado do mundo.
Pergunto-me o quanto é raso ou o quanto é fundo? O que é raso? O que é fundo?
O que é novo? O que é mundo?
O que me prende as amarras que por mais que ice minhas velas não consigo navegar
O que me larga, me lança no vazio e que por mais que eu queira colo, não consigo aconchegar.
Que força é esta, que braços são estes que vivem trabalho como fundamento da própria existência.
Por vezes temi que não agüentassem minha saudade, que teus longos braços fortes e teus cabos rijos não suportassem quem já nem se suporta.
Ah, guindastes do porto, testemunhas de quem foi meu pai, testemunhas do céu que me cobre, da saudade que sinto de um tempo que não vivi, das ruas e luzes que não ouso nomear.
O cheiro que abastece os armazéns servidos por ti e que me inebriam quando busco a resposta para o fascínio que me escraviza a tua imagem.
Amo o que não conheço, ou amo tanto por conhecer tão pouco e esse pouco é que mantém viva a esperança de um dia traduzir-te, de um dia tornar clara a bruma da harmonia que se estabelece em mim quando te vejo.
Iça-me, iça-me bem alto, iça-me pra longe do mundo.
“A quem devo ser fiel” – a História de um farol.
Ah, a areia num vento torto acaricia-me os pés
Envoltos no conflito doce de paixão voraz
Sem perceber-me, lá se vão os dois
Sem saber da dor que essa paixão me traz
Ah, a brisa leve da manhã de outono
Ao pé d´ouvido me sussurra um rio
“que há de mal em ter-se, que há de mal em dar-se?”
Penso: triste é teu correr, pesar teu entregar-se
Curso musical, tua leve harmonia, clara e verde e pura
Acumulas de paixão a figura que te chamas
Te enriqueces de contos e de sombras e candura
Ah destino teu, que destino tu derramas, que destino tu procuras
O aroma de maçã vem nas asas da primavera
Aqui fico, cansado e torto como o vento
Contemplando o que um dia tive
O que já não tenho mais por dentro
Nasce, cresce, corre; ah, tempo ardil
Que retrato mais viril, que metáfora de amor!
Quanta decência e certeza no penar
A quem devo ser fiel? A quem devo dar valor?
Pensem vocês que de angústia sobrevivo
Outrora minha luz caminho certo para os desvios
Hoje, cansada testemunha, cúmplice de força e dor
Ah, a quem devo ser fiel? Que metáfora de amor!





