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Retomando a falta de contato.

Faz tempo que não escrevo, mas, pensei em tantas coisas ao longo desses meses que a sensação é de ter escrito muito. Afinal, pensar e escrever podem ser duas tensões que se complementam, que se absorvem, que bailam em meio a palavras pronunciadas ou não. Pensar em escrever pode ser tão bom ou melhor que escrever sem pensar, como faço neste momento. Organizemos pois alguns pensamentos.


Estive na minha cidade natal, Niterói, onde fui encarar chuva e dar minha presença à minha mãe durante a fase ruim que foi a da quimioterapia. Fiz uma turnê por alguns lugares da minha infância, cerca de 40 anos atrás. Senti-me mal, encarando um passado como se o futuro fosse mais incerto que cada evento já esmaecido na memória. Não há certezas sobre o futuro pois não creio na predestinação. Mas a descoberta que não há certezas no passado, o meu passado, causa um pouco de desorientação. Afinal, baseamos tudo o que somos na crença que nossa história pessoal é a linha que nos mostra no que resultamos. Mas quando buscamos demolir crenças, chega-se ao momento de acertar as contas com estas noções também. Então em (in)determinada hora notamos que nosso passado é uma cadeia de acontecimentos interpretados, uma mistura daquilo que achamos ter causado o que nos aconteceu com a imprecisão que acreditamos ser as relações de causa e efeito. Reveste-se de novo significado o “conhece-te a ti mesmo” pois já não tenho a certeza de conhecer qualquer coisa além do presente, do momento atual, do agora. Heráclito de Éfeso, valei-me…


Airbus caiu no mar. Notícias publicadas em junho mostraram que as pessoas no vôo fatídico não tiveram tempo de se preparar para a turbulência. Ora, entre a turbulência e a morte passaram-se segundos os quais devem ter sido de puro terror a quem estava consciente. Preparar-se para a morte leva anos. Décadas, talvez. Mergulhar nas águas escuras e geladas do Atlântico ou do vazio não é melhor ou pior que qualquer outra morte sem preparo. Sem décadas de preparo. Sinto pelo terror que foi vivido, pela dor dos que perderam seus entes queridos. Sinto igualmente a angústia de ter viajado na mesma rota, de querer viajar na mesma rota e de ter mais um medo no pano de fundo de qualquer coisa que fazemos.


Hoje, sete de setembro, filio-me ao Partido Comunista do Brasil - o PCdoB. Mais que um filiado, serei militante. Um partido que se repensou após a queda do Muro de Berlim e que mantém uma proposta coerente com sua trajetória. Em um balão de ensaio junto a alguns amigos, recebi a crítica: “mas, comunista ?” Sim, comunista. Apenas para registro, quem costuma (ainda) comer criancinhas são os capitalistas. Basta ler as manchetes, sejam as policiais (comer no sentido sexual), sejam as econômico-financeiras (o dinheiro em função do dinheiro, que perpetua a pobreza de quem não o tem).


Norberto Bobbio, um respeitável liberal e, com divergências ao comunismo, escreveu: “se não tivéssemos aprendido com o marxismo a ver a história do ponto de vista dos oprimidos e adquirido assim uma nova e imensa perspectiva do mundo humano, não teríamos nos salvado". Logo, sim, sou marxista. Quer criticar, ótimo. Mas não me venha com achismos - vamos debater Marx. E debater Bobbio, afinal qual é a “salvação” que ele aponta ?


Pequeno Lúcio crescendo. Fizemos o “Conselho de Família” onde ele defendeu ganhar um video-game. Argumentou, justificou, respondeu os questionamentos que Denise e eu fizemos. Por enquanto, por 2x1 ele ficará sem o brinquedo. Voltaremos à discutir em outubro. Valores democráticos devem ser uma prática em casa para que as crianças aprendam que o poder é exercido em nome de um todo. Combinamos os pais que ele ganhará, no momento certo, após a devida discussão. Após a devida votação que será apertada e cuja vitória será mediante regras aceitas. Não cabe às crianças decidirem por si o que farão. Mas cabe aos pais proporcionar o aprendizado de valores em todo e qualquer momento. Mandar é mais fácil que discutir. “Faça porque quero que faça” é fácil. “Não dou, não chegou a hora” é simples. Mas não é o melhor. Convencer, argumentar, é sempre mais difícil. E nobre.


S., não respondi seu e-mail ainda. Sua última mensagem devastou algumas das minhas certezas momentâneas. Cada vez que a releio, penso em responder via correio para colocar um pouco de mim na tinta, no papel. Mas será pouco. Apenas, e por enquanto, releio Pessoa:
“Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.”

Link permanente 14.06.09 01:35:37 , by laurofab Email , 903 visualizações, Escritos Irrelevantes, Política, 2 comentários »1 trackback »

Tenha vergonha em ser feio. Vícios ou hipocrisias ? Last Minute. Estômago.

Hit do momento, Susan Boyle, uma mulher que não é nova, não tem uma boa plástica nem um corpo escultural, faz sucesso por ser “feia” mas cantar muito “bem". Os links da apresentação dela em um programa desses de auditório onde cantores são “revelados” são dos mais vistos nos últimos dias no Youtube. Nas listas de e-mails, repassam-se tais links como se houvesse uma mensagem a ser transmitida. Algo do tipo “engulam o preconceito, ela é feia mas canta muito bem". Pois é. Não tem jeito, a mente que não reflete é campo fértil para a propagação de preconceitos e de banais interpretações dos outros e de si mesmo…

A mensagem que está sendo passada, e como se fosse “bonitinha", é que Susan é uma estranha no ninho. “Nossa, como canta bem” quer dizer “Nossa, é tão feia, coitada, e consegue cantar tão bem". Emociona-se ao ver alguém tão “feio” conseguir fazer algo “tão belo". É um preconceito só, do início ao fim, achando-se que se propaga uma mensagem contra o preconceito. Nas palavras da Susan, entrevistada após o show, “a sociedade moderna julga as pessoas apressadamente pela aparência, talvez meu caso sirva de lição".

Não Susan, infelizmente não. Os “bonitos” a vêem não como uma pessoa dotada de uma voz fantástica e de uma simpatia ímpar, querendo ficar à serviço da arte. Vêem-na como um “freak show” em uma circo de horrores, entre a mulher barbada e o homem gorila, uma mulher que apesar de “não ser", “é". Ao assistir o show da Suzan, a maioria se esquece que ela tem este talento musical há mais de 30 anos. E que deve ter tentado cantar. E que deve ter sido barrada pela aparência. E que, passados os 15 minutos de fama, continuará a ser “a coitadinha que canta bem” ou então se converterá, se adaptará como um Michael Jackson e fará de sua condição um trunfo, ganhando a vida misturando seu talento com o fato de ser uma “excentricidade".

Não vi nada de mais nem de menos em Susan Boyle. Ela é apenas mais uma cantora de grande talento e uma só exibição é pouco para avaliá-la como “excepcional". Emocionou-me muito mais a letra da música que ela cantou, “I dreamed a dream”, particularmente o último verso, que ainda me derruba (embora esteja trabalhando nisso - não desisti !): “agora a vida matou o sonho que sonhei".

Você, que clicar no link abaixo, assistir ao show da Susan e avaliar que a voz dela é bonita “apesar da mulher feia", tenha vergonha. Tenha vergonha em ser feio. Pelo menos, na única forma de beleza que interessa a quem tem valores que passam longe da plástica e do narcisismo.
Susan Boyle


Para quem, como eu, não gosta de musicais, mas gosta de Victor Hugo e ainda não teve oportunidade de ler Os Miseráveis, o filme é muito bom e vale a locação.


Professor Luiz Pondé escreveu na Folha de São Paulo: “O que nos humaniza são os vícios, não as virtudes. Temo pessoas que não têm vícios. O novo hipócrita é magérrimo, “verde” e antitabagista.” É um ponto de vista que merece avaliação. A grande questão é que assim como virtude, vício é um conceito absolutamente pessoal. Existem hábitos que nos fazem bem mas fazem mal a outrem. Existem hábitos que nos parecem inofensivos mas que nos prejudicam. Neste grande espaço de discussão, o que importa é o diálogo e o convencimento. O que prejudica é a imposição e a castração. Por isso me afasto dos códigos morais que tentam impor goela abaixo o que não deve ser feito. Há muito mais validade e coerência nos códigos que tentam aconselhar o que é mais importante para desenvolver uma ética pessoal que o aproxime do ethos no qual se vive.


Ontem, sábado, peguei o Lúcio e fomos à Pinacoteca de São Paulo pois eu queria ver a exposição de Fernand Léger. Chegando lá, no octógono, estava recém-inaugurada uma instalação chamada “Last Minute” do artista contemporâneo argentino Jorge Macchi. É um grande relógio no chão, onde o ponteiro arrasta um fio que toca o chão e as imperfeições deste são transformadas em sons por um computador, através da codificação desenhada pelo compositor Edgardo Rudnitzky. A experiência é interessante pois sonoriza a passagem do tempo, baseada na imperfeição do mecanismo. O som não é repetitivo, oscila e é descontínuo. Como nossa percepção do tempo. É interessante ver a instalação no mesmo piso e nos andares superiores. Tem foto e um texto sobre a instalação no blog Frequentar os incorporais.


Para encerrar o sábado com um excelente filme, Estômago. É uma aula de cinema contemporâneo e merece ter os extras assistidos. Produção ítalo-brasileira, com atores mais conhecidos nos Festivais de Teatro de Curitiba que aqui em São Paulo. Quem puder, assista que é um divertimento de qualidade. E, claro, possui olhar crítico à contemporaneidade.

Link permanente 18.04.09 11:56:59 , by laurofab Email , 972 visualizações, Não categorizado, 4 comentários »2 trackbacks »

Você tem pessoas favoritas ?

Tania Elizabeth comenta meu post anterior, chamando atenção para a necessidade do envolvimento com a Educação. Em tempos de “big brother", de pegadinhas do Faustão e de Índia pela novela das 8, fica cada vez mais complicado querer que o povo seja preocupado com a educação dos seus filhos. Danos irreversíveis nas novas gerações ? Não. As gerações se adaptam ao meio. O meio é insosso, não devemos esperar muito. Ou então, nos preocupamos e tentamos fazer algo. Sou filiado ao PPS, Partido Popular Socialista, e começarei a militar politicamente de maneira mais ativa. Meu foco são as escolas públicas da Zona Norte de São Paulo, onde moro. Cada vez mais penso que quando o Lúcio começar o Ensino médio, colocarei-o em uma Escola Estadual. Não pelo dinheiro, mas pela coerência. Assusta a idéia. Medo de drogas, de má companhias. Assusta mas pretendo encarar, Denise apoiando.


Mas o que é “encarar” ? É acompanhar em casa o desempenho do filho na Escola. É ir à Escola conversar com os Professores, Diretores, Orientadores. É fazer parte da Associação de Pais e Mestres (APM) e discutir, muito, o que é feito versus o que deveria ser feito. A questão não é se conformar com o “possível” ou com o que “os recursos permitem". É brigar pela definição de “possível” e pelo estabalecimento dos recursos. Difícil. O fácil é colocar numa boa escola particular e ir nas festinhas.


Classe média coloca o filho na escola particular. Pobres, na pública. Dentre as escolas públicas, quais possuem melhor desempenho ? Onde a APM está engajada. É necessário acompanhar. Gritar. Protestar. Exigir. Quem não está nem aí para a escola pública, não tem o direito de reclamar da falta de segurança. Cospe na sociedade mas brada pelos seus confortos. Reclama que no passado a escola pública era referência, em um saudosismo insano e desmedido. Alega que paga os impostos, logo, que o Estado faça o resto. Quem é o Estado, cara pálida ?


Na seção “eu recomendo", com veemência indico que se assista ao documentário “Pro Dia Nascer Feliz", de João Jardim, distribuído pela Copacabana Filmes. Mostrando Escolas no sertão de Pernambuco e nas metrópoles Rio de Janeiro e São Paulo, emociona e faz pensar. Peça na sua locadora - compre se puder e empreste aos amigos. Tem um depoimento de uma adolescente pobre que se torna rica com a leitura, com a poesia. Ela escreve e os professores dão nota baixa pois acham que ela copia… Os próprios professores, que provavelmente não leram os livros que ela lê, questionam sua integridade. O nome dela é Valéria e a resposta dela aos 16 anos de idade para tal situação foi a seguinte: “Eu deveria ter uma péssima impressão da vida se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver“.


O filme acima é co-produzido pela Globo Filmes. O mesmo grupo que aliena as massas com o big brother incentiva uma jóia dessas. Flor que brota no lixão.


Lúcio vem ao meu lado com um pote repleto de sucrilhos. Pego um pouco.
Lúcio: “Ei !”
Lauro: “Não posso pegar ? Você ficou egoísta ?”
Lúcio: “Não é isso, você deveria ter pedido por favor".
Lauro 0 x Lúcio 1


Gilson Schwartz e Guilherme Ary Plonski escreveram na Folha de São Paulo de 08/04 sobre os ativos que estão acima de qualquer crise: as tecnologias de informação e comunicação. Ressaltam que é essencial discutir e decidir sobre os futuros modos de utilização a infraestrutura de inteligência coletiva que se elabora com as redes sociais digitais. Coloquei o texto à disposição: Velho continente, conhecimento novo


Tenho pessoas favoritas. São pessoas às quais recorro em pensamento quando tento me aproximar ou mesmo apropriar das qualidades às quais me são favoritas. Assim, quando preciso ser sereno, lembro de Fulano pois Fulano é minha pessoa favorita em serenidade. Quando quero pegar o chicote e expulsar os mercadores do templo, penso em Cicrana pois ela é Mestre em chicotear. E assim por diante. Pessoas, não anjos ou deuses, pois fica muito mais fácil e coerente eu me identificar com quem sei que também passa por suas constantes necessidades e inconstâncias. Afastei-me das religiões por buscar modelos não de perfeição, mas, de coragem, de vitórias e de derrotas dignas. Minhas pessoas favoritas o são sem saber. Nunca saberão. Assim, desvinculo minha razão julgadora da possibilidade de decepção ou de artifícios. E Beltrano pode ser pessoa favorita em algo amanhã e deixar de ser no mesmo dia, voltando dois dias depois…Ter pessoas favoritas e pensar nelas é emocionante. É controlar as próprias expectativas. É bem melhor que assitir big brother brasil. É pensar em si e nos outros, mas, sem estar ensimesmado, olhando os outros pelo próprio umbigo.


Pessoas que gosto me indicaram, recentemente, André Rieu. Tentei. Ele parece equiparado a Celine Dion, Madonna e Britney Spears no quesito vendas. Teve um mérito. Tentar assistir uma de suas performances fez com que separasse para reler “O fetichismo na música e a regressão da audição", de Theodor W. Adorno. Evidente que não há diferença, pensando em Adorno, entre ouvir Stairway to Heaven do Led Zeppelin ou Verdi pelo André Rieu. A diferença é que nenhum fã do Led Zeppelin tenta “vender” seu conjunto como uma maravilhosa expressão musical. O Led é o Led e ponto. André Rieu, “rei da valsa", é para quem gosta de musicais da Broadway… Nada contra, mas prefiro Led, Pink Floyd, The Doors, Barão Vermelho, e, sendo moderninho, Coldplay e Rosa de Saron.

Link permanente 10.04.09 12:40:47 , by laurofab Email , 116 visualizações, Escritos Irrelevantes, Política, 1 comentário »Envie um trackback »

Agradecimento, desalento, política, camiseta apertada.

Agradecimento. Agradeço os posts, e-mails, torpedos e ligações que recebi para minha mãe. Fiz questão de repassar todos - e ainda repasso diariamente. Ela está bem, ainda com dores, mas indo bem. Amanhã (terça dia 07/04) saberemos se ela precisará ou não de quimioterapia.


Catástrofe na Itália. Na região montanhosa de L’Áquila, próxima à Roma, um terremoto causou destruição e morte. Fiquei triste pelas pessoas mortas e desaparecidas, pelo patrimônio histórico destruído. Mas o que causa desalento é que Giampaolo Giuliani, técnico do Laboratório Nacional de Física e Astrofísica Gran Sasso, na região de Abruzzo, após estudar os quadros sísmicos da região, tentou alertar as autoridades para o iminente terremoto. Sem sucesso, alugou um carro de som e tentou avisar aos moradores. Foi advertido e processado por espalhar o pânico. E agora ? Pode ele processar os políticos que não o ouviram ? Fosse ele um desses embusteiros radiestesistas que vivem de explorar a fé alheia, a vender símbolos mágicos para proteger habitações de mentes pré-iluministas, talvez tivesse mais sucesso. Mas não, ele era “apenas” um cientista. Isso dá um enorme desalento. Ciência e Política são duas vocações, dizia Max Weber. Nos dias de hoje, a primeira tem menos prestígio que curandeirismo travestido de “terapias alternativas” e a segunda submerge com a imoralidade dos seus expoentes.


O Senador Cristóvam Buarque foi exilado, lutou para restabelecer a democracia. Homem comprometido com a Educação, é de boa índole. Sua fala nesta segunda, sugerindo uma provável consulta popular para fechar o Congresso, foi um deslize talvez pelo cansaço. Mas, é deslize mesmo. Ruim com o Congresso, pior sem ele. Aqui em São Paulo estamos ombro a ombro com um Projeto da Maçonaria: tire um corrupto da política e coloque uma pessoa decente no lugar. Simples. E difícil.


Quem puder comprar a revista Educação Infantil, da Editora Segmento, faça-o. O número 2, R$5,90, possui como matérias “O brincar que educa", “Ética e desenvolvimento", “Jogo Dramático” e outras mais. A revista é destinada a educadores e interessados. Pais devem sê-lo, não ?


Neste domingo levamos o Lúcio ao shopping para assistir um filme. Na saída, indo à Saraiva dar uma olhada nos livros, descobri uma loja com camisetas de rock - estampas licenciadas. Absurdo, esquecem que quem nasceu na década de 60 e é forte candidato a comprar camisetas do Pink Floyd, The Doors e Led Zeppelin, tem grandes chances de hoje precisar de tamanho XXL. Só vai até XL… Fica apertada, mas, quem liga ?

Link permanente 07.04.09 01:16:38 , by laurofab Email , 448 visualizações, Escritos Irrelevantes, Política, 4 comentários »1 trackback »

Conspirações, cirurgia, Cuca, hare-Krishna e tinturas para cabelo.

Ontem, quarta-feira, saí de casa com destino ao Rio de Janeiro, para acompanhar minha mãe em sua cirurgia para retirada do câncer de mama. Parei em uma padaria perto de casa, almocei frugalmente e encostei no balcão para tomar um café. Um homem aparentando uns 60 anos puxa conversa: “o senhor sabia que essas laranjas são deste tamanho por que vêm da Flórida ?". Interessado por onde o assunto me levaria, respondi que não, esperando a explicação. Ela veio: “nossas laranjas eram grandes, suculentas, doces. Então impuseram essas laranjas da Flórida pois só elas cabem nessas máquinas de fazer sucos.” Antes que eu saísse do assunto ou da padaria, ele emendou que no Brasil não existem azeitonas pretas - todas são verdes e tingidas - e que os tomates recebem radiação para demorar a amadurecer. Saí antes que ele terminasse de dizer que hoje só as salsichas, ao contrário do que dizem, são boas.


Minha mãe saiu há pouco da cirurgia. Observo-a da poltrona, notebook no colo, afastando o resquício de medo enquanto escrevo. Não há como sair bem de uma cirurgia onde uma parte do seu corpo foi extirpada. Ela murmura que sente dor e que está com fome. Visivel e naturalmente abatida, está alguns anos mais velha. Talvez só agora eu tenha percebido que minha mãe, apesar do espírito jovem, está irremediavelmente tocada pela idade.


Cuca comentou meu post anterior. Disse ela que eu preciso escrever mais sobre amor e menos sobre sabedoria e sua eventual prepotência. Ora, Cuca, mas eu amo a sabedoria, logo, buscá-la é um exercício de amor ! Poderia eu justificar que já tem muita gente escrevendo sobre o amor. Mas isso nunca é verdade, pois sempre será insuficiente falar sobre amor. Eu amo até pelos meus poros, mas, cada um tem sua forma de amar e demonstrar seu amor. A Cuca é uma eterna apaixonada pelos animais e faz em excelente trabalho com cães. Ela demonstra seu amor pelo universo de uma maneira que lhe é própria. É isso que busco, amar meu universo da maneira que me é próprio fazê-lo. Com os riscos e dificuldades inerentes - a incompreensão é uma delas.


Mauro, primo e Irmão em alto grau, convida-me para acompanhá-lo amanhã até a Barra para assistir um show do Leo Gandelman & Banda, com jantar indiano. É um local Hare-Krishna. Respondi que minha vontade de ir em um lugar Hare-Krishna é a mesma de ir em um Salão do Reino das Testemunhas de Jeová. Nenhuma. Ainda mais para jantar natureba, pois parece que picanha e Ashras não combinam. A companhia seria maravilhosa, a música idem. Mas existem problemas ideológicos que ultrapassam isso. Talvez eu conheça o marido de minha prima Érika em um barzinho de Niterói e, pensar em frango a passarinho com uma cerveja gelada me compadece muito mais que torta de nabo com acelga e suco de clorofila. Se Érika não vier, tem um rodízio de pizzas em São Francisco, com vista da baia da Guanabara e pizza de farofa. Sim, paulistas, aqui no RJ existe pizza de farofa e pizza de batata frita - ambas deliciosas e intercaladas com gnocchi de carne de sol; acabou-se o tempo que aqui só tinha mozzarella com catch-up e mostarda ou no máximo uma calabresa.


Entra um enfermeiro que precisa de uma assinatura para enviar material para análise patológica. Olha nos meus olhos e pergunta - ao lado da minha mãe: “O senhor é o esposo ?". “Não, sou o filho", com indisfarçável irritação enquanto meu Irmão caía na gargalhada. Vou ao banheiro, olho-me no espelho e pela primeira vez penso que talvez seja hora de não gostar dos cabelos e da barba grisalhos.

Link permanente 02.04.09 16:36:56 , by laurofab Email , 247 visualizações, Não categorizado, 13 comentários »Envie um trackback »

Aborto, Câncer, OSESP, Idiotices pós-Carnaval

Possuo amigos que são pessoas religiosas. Inteligentes, cultos, bem informados. Possuo amigos que são céticos. Inteligentes,cultos, bem informados. Conheço pessoas que são idiotas. Idiotas podem ser cultos e bem informados e a idiotice independe da crença ou de sua falta, existindo idiotas religiosos e idiotas céticos.

O sentimento religioso faz parte do homem desde quando ainda dormíamos em árvores. Ele se baseia no confronto com a finitude da existência e na necessidade de apreensão da infinitude do universo. Humano, demasiadamente humano, óbvio. No caso dos religiosos, quanto mais o homem aquilata sua sensação religiosa, mais adquire o controle da sua vida e da sua felicidade, deixando de ser um joguete nas mãos das divindades que cultua. Desta maneira, existem cristãos esclarecidos, que buscam uma sensação de êxtase com o simples fato de se sentirem participantes da obra que consideram divina. E existem os mais obscuros, para quem citações bíblicas devem ser o ingrediente de qualquer conversa. Ainda sim, embora obscuros, podem ser inteligentes. Ou idiotas.

Existe um teste fácil para saber se seu amigo religioso é um idiota ou não. Mostre uma foto de uma criança recém-nascida morta por um estilhaço de bomba na Faixa de Gaza ou por uma bala perdida nas periferias brasileiras. Se você escutar um “…é a vontade de Deus…", pense na possibilidade do seu amigo possuir uma visão muito primitiva sobre o deus dele - nas palavras de Saramago, “É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue"(*). Quem acredita que Deus intervem na existência humana desta maneira está próximo a acreditar que oferendas a deuses acalmam tempestades - só não percebe ou aceita esta proximidade.

E, campeã recente de idiotices, o arcebispo de Recife e Olinda excomungou a mãe e a equipe médica do aborto (autorizado pela justiça) de uma menina de nove anos de idade que estava grávida, após ser estuprada pelo padastro. Não excomungou o estuprador, reavivando o famoso “estupra mas não mata". Eu, por ser maçom e automaticamente excomungado, sinto satisfação em ser “proibido” de conviver com o arcebispo e pessoas que pensem como o mesmo.


Nesta semana passada foi diagnosticado câncer de mama na minha mãe. Palavras dela: “estou preocupada, mas não desesperada. Vou marcar a cirurgia e iniciar o tratamento. Acabei de colocar uma cerveja no freezer e vou tomar um copinho.”

Eu fiquei dois dias derrubado. O emocional causou elevação na pressão arterial e a enxaqueca veio forte. Por mais racional que eu seja, ou que penso que sou, ou que gostaria de ser, só um monstro não reage ao saber que uma pessoa amada está doente.

Mas não peço rezas - embora minha mãe as aceite de bom grado. Peço que as pessoas queridas a procurem e a confortem. O conforto em carne e osso, principalmente nessas horas, é muito mais eficaz que contar com o auxílio das estrelas.


Infelizmente pela TV Cultura e não pessoalmente, assisti ao Concerto de estréia do Maestro Yan Pascal Tortelier na OSESP, nesta quinta dia 05/03, abrindo a temporada de 2009. O regente francês regeu o Hino Nacional, Elgar e Rachaninov sem partitura - de memória. Mas o destaque, na minha consideração, foi a expressão simpática e alegre do Maestro… Em uma entrevista que não lembro se na Bravo ou na Folha, Tortelier disse que, apesar de amar a música erudita, ele gosta de ouvir jazz, em um ecletismo possível e interessante.


Li muitas coisas sobre o fato do Senador e ex-Presidente Fernando Collor assumir a Presidência da Comissão de Infra-estrutura do Senado. Não deveria ser surpresa. Democracia na versão contemporânea é isso - se o povo das Alagoas elegeu Collor, ele representa o estado na Federação e pode ser eleito para qualquer função. Até mesmo ser candidato à Presidência.

Antes que se fale mal da democracia, convém lembrar: o conceito surgido na Grécia Antiga é simples: cidadão vota, escravo não. E hoje, com os milhares de escravos da TV e do marketing votando, não se espere um Congresso melhor. No conceito grego, cidadão é quem participa. No atual, cidadão é quem respira e não está preso.

Penso diferente: para ter direito a voto e ser considerado cidadão, o indivíduo deveria fazer por merecer. Deveria ter direito a voto quem, pelo menos seis vezes ao ano, participasse de reuniões na APM da escola pública onde seu filho estude, ou de reuniões no CONSEG do bairro, ou de reuniões de Orçamento participativo da sub-prefeitura, ou de reuniões dos Alcóolatras Anônimos, ou de plenárias no Conselho Regional da sua categoria profissional - enfim, em qualquer tipo de reunião pública onde o indivíduo não olhe só para o umbigo e veja realidades diferentes da sua. Onde aprenda a pensar comunitariamente.

Quem vai de casa para o trabalho, senta na frente da TV e deixa o mundo das imagens povoar sua esperança não merece votar. Merece qualquer Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma, Serra - tem diferença ?


(*) SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. Pág. 391

Link permanente 08.03.09 12:19:13 , by laurofab Email , 381 visualizações, Escritos Irrelevantes, 5 comentários »Envie um trackback »

Após 50 dias...

Há 50 dias escrevi pela então última vez neste espaço. Bom, o tempo anda escasso e entre beber com amigos e escrever com atenção, estive mais propício ao primeiro. Mas urge comentar o caso da brasileira na Suíça…

Primeiro, o horror da violência - chega a notícia que Paula Oliveira foi vítima de radicais de direita, com o corpo marcado por estiletes. Ora, em um país como o nosso, onde traficantes, grupos de extermínio, justiçeiros e etc fazem as próprias leis, esta violência não é novidade e é frequente nos jornais populares. Mas quando ocorre na Suíça e não no Pavãozinho ou em Guainazes, é primeira página da Folha de São Paulo e do Estadão. Traz ao subconsciente colonizado do brasileiro uma espécie de satisfação com o horror alheio, algo como “viu, não é só aqui !”

Depois chega a notícia que pode ser que a jovem tenha se automutilado. Aí a turba, como se jornalistas fossem isentos ou matérias da TV e dos jornais tivessem profundidade, ou ainda como se conhecessem detalhes do inquérito que está sendo apurado, já apontam o “171 da brasileira nos suíços". Virou piada antes mesmo de ser verdade.

Ora, o que não se deveria perder do horizonte é a doença. Seja na primeira hipótese, seja na segunda, há doença envolvida e do tipo de doença que não basta um remedinho. Se há um grupo barbarizando em nome de “ideais” desprovidos de idéias ou se há uma jovem com sérios problemas psíquicos a serem sanados, não há espaço para um pensamento que não seja o de desintegração, de perda, de tristeza com este pesado mundo que desde sempre encaramos. Ou alguém é capaz de provar que o mundo já foi melhor alguma vez no passado ?

Determinadas doenças são fruto do exercício de um tipo de poder que é o de causar dor para não enfrentar a própria e sofrida falta de sentimento de pertença ao mundo - ou , pelo menos, ao mundo que se desejaria viver.

Entre uma tristeza e outra, busquemos a saúde e a alegria. Não como Poliana, mas, com a certeza que podemos pelo menos tentar sair das doenças do dia-a-dia. Diz uma amiga para plantar flores que virão as abelhas. Ora, sem paulocoelhices, é muito mais prazeiroso agir efetivamente para conquistar a felicidade que esperar a chegada da mesma. Quem espera pode receber estiletes na carne e, com sinceridade, não importa de quem foi a mão - o triste é ser mutilado. Penso em mutilação lembrando das fotos da moça-vítima e lembro que no UOL, na matéria de cima, falava-se do Big Brother Brasil atual. Quem disse que mutilação é só na carne ?

Link permanente 14.02.09 23:28:34 , by laurofab Email , 154 visualizações, Não categorizado, 2 comentários »Envie um trackback »

Escritos esparsos pós-natalinos

Minha quase cunhada Magda, irreverente e inteligente como sempre, respondeu às “provocações de Natal” acusando: “O Lúcio deve ter pedido um brinquedo bem caro…” e dado risadas… Após as minhas risadas, dei-me conta que sou um privilegiado. Tenho nos dias de hoje (não sei até quando - é a crise !) condições econômicas de deixar meu filho escolher livremente o presente que quer ganhar do “papai noel". Mas ele pediu um Wall.e Transformer, custou R$109,00 e não usa pilhas nem faz pirotecnia, não integra com I-pod nem solta ruídos assustadores. É um brinquedo praticamente de montar e desmontar. Não tenho a ilusão de que ele abrirá mão do playstation ou do wii, quando chegar a hora, mas, pelo menos neste natal que passou, ainda foi tranqüila relação consumo x prazer dele.
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Ontem, 26/12, estive em deslocamento de Serra Negra para Lindóia, Águas de Lindóia e Monte Sião - já em Minas Gerais, onde comi um torresmo delicioso e já pensei em qual fonte devo me banhar para curar isso tudo. Repentinamente, necessidades profissionais me fazem tentar conectar à internet. Pego o mini-notebook que estava no porta-luvas do carro, conecto o mini-modem 3G da Vivo e, maxi-desespero - não consigo conectar com a velocidade e a estabilidade necessárias para conseguir trabalhar. Concluí que sou um viciado digital, mais que no bom escocês e no bom charuto, o que me inscreve na categoria dos dependentes de estar conectado. Agora mesmo, aqui, com uma serra linda à minha janela, com pássaros de todos os tipos e um solzinho querendo se firmar, adio minha saída para curtir esta natureza quase que sufocante para ficar registrando esta mesma dependência.
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Na saída de àguas de Lindóia, paramos no Queijobom para alimentar minha compaixão pela minha gula. Dentro da Loja, um café expresso de cortesia. Mais um vício, o do café, e lá estou no balcão quando o balconista, um rapaz entre aproximadamente 25 a 30 anos de idade, pergunta o que significa a tatuagem no meu ombro direito. Explico. Ele diz que fará no ombro dele “o símbolo do Queen". Eu pergunto qual e ele começa a descrever - é a capa do “A Night at the Opera", quarto álbum de estúdio do Queen. Ele não tem internet, nem e-mail, nem celular. No serviço, só usa o telefone para recados. É totalmente “desconectado” da mídia digital, no entanto, aprecia Queen e Ac-Dc. Diz que sonha em ter dois shows: Live in Wembley (1986) do Queen e Fredy Mercury com Montserrat em Barcelona. Ele e a esposa não consguem ir a SP procurar. Desconfio que o salário de dois balconistas não permita tal extravagância. Peguei para mim a missão de encontrar ambos e enviar para ele pelo correio. Cuidadoso, Douglas Lopes pede que primeiro eu ligue e diga o preço - podendo, ele depositará o dinheiro na minha conta para que eu compre. Saí de lá feliz com a perspectiva de auxiliar o jovem a apreciar boa música - a que ele gosta. Mas ao mesmo tempo, triste com minha pequenez ao me sentir vitorioso em poder ajudá-lo.
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Professor Franklin respondeu às “provocações de natal” diretamente ao meu e-mail. Como sempre, seus escritos são uma aula. Chama-me a atenção: “Quanto à Festa do Natal: não é propriamente a festa máxima do cristianismo. Aliás a história do nascimento de Jesus é considerada por muitos exegetas como um acréscimo posterior aos textos evangélicos. Pelo menos com relação ao texto de Mateus. A festa máxima do cristianismo continua sendo, parece-me, a Páscoa.” Tenho que agradecer e concordar. Aliás, se não me falha a memória, Ernest Renan escreveu sobre isso em seu insuperável “Vida de Jesus". Mas a questão então é outra: conhecem os “cristãos” de hoje as obrigações de sua própria fé ? Atendem à Páscoa com a mesma significação que empregam ao Natal ? Não sei, mas duvido.
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Meu Irmão Salgado diz que meu site está virando um “diário". Ora, Salgado, o “visoesavista” está dentro do “diarioindiario"… Há coerência… E não é um “site” propriamente dito e sim um blog. Não sou blogueiro profissional, ou seja, não uso o blog como ferramenta de trabalho ou para alavancar minha profissão. Escrevo em uma posição narcisística de quem pensa ter o que dizer aos amigos e a quem aqui “cair” na teia do ciberespaço. Este é um fenômeno na ultra-comunicação contemporânea o qual estou experimentando, locomovendo-me com cautela e sempre com entusiasmo. Submeto algumas das minhas idéias em textos curtos e que na maioria das vezes merecem reparos. Mando para minha lista de contatos e meus conhecidos no Orkut os links, torcendo para que ao receberem, desfrutem ou das minhas idéias ou da liberdade em deletar o link sem nele clicar. Sendo bem sincero, desde que parei o Mestrado em Filosofia, esta está sendo a única oportunidade de organizar minhas idéias na escrita - e mantenho o desejo de escrever cada vez melhor. Afinal, tenho direito às minhas ilusões…

Link permanente 27.12.08 08:10:08 , by laurofab Email , 370 visualizações, Não categorizado, 2 comentários »Envie um trackback »

Provocação: o melhor Natal, para mim, é a capital do Rio Grande do Norte.

Meu filho Lúcio, 5 anos de idade, acredita em Papai Noel. Mantenho a mística do bom velhinho, pois acredito que nessa fase é importante a criança enxergar magia na vida - através dessa magia podemos propagar valores humanistas e éticos de maneira mais fácil. Segundo Lévi-Strauss, em seu recém publicado no Brasil “O Suplício do Papai Noel” (Cosac Naify, 56 páginas, uma excelente leitura para o feriado), “Papai Noel vem em socorro dos adultos“. Iniciando a antropologia estrutural, o pensador apresenta a divisão simbólica entre as crianças, que receberão os presentes, e os adultos, que trabalharão para manter o segredo da não-existência do bom velhinho.

No fundo, os adultos queremos acreditar que quando damos os presentes em nome do “noel", somos desprendidos; gostaríamos que realmente existisse essa figura de bondade. Preserva-se, assim, de maneira cada vez mais inconsciente, o verdadeiro e original sentido do Natal: o solstício de inverno (hemisfério norte), a partir do qual a duração do dia começava a crescer, a vitória da luz sobre a escuridão, o “sol vencedor", “sol invictus, “solistício", que a religião cristã se apropriou para transformar uma festa “pagã” na festa máxima da sua divindade.

Mas esta crença no Papai Noel me servirá muito bem quando o Lúcio me perguntar: “Pai, deus existe ?". E eu poderei responder: “tanto quanto Papai Noel". Assim, no dia em que ele não mais acreditar num velhinho de roupas quentes a distribuir presentes, também entenderá que acreditar num velhinho a ouvir preces e interceder na vida humana é no fundo, nossa esperança que o mundo e nossa existência fossem melhores. Mas é pura, doce e falsa magia. Se bem que em nome do Papai Noel nunca ninguém começou uma guerra, o que me faz desconfiar que a crença em um deus pessoal, que escute e atenda ao indivíduo, não tem nada de pureza ou de doçura e, sim, de medo, de angústia, de solidão.

Oração ? Sim, eu acredito no poder da oração. Não que “alguém” ouça, mas, por uma questão bem contemporânea mas nada nova: foco. A oração faz com que você - se não estiver no “piloto automático” - foque naquilo pelo qual você ora. Se este foco vai ser direcionado para depois, arregaçar as mangas e buscar aquilo que é desejado na oração, ou deixar para que “deus” ou o acaso mexa os pauzinhos, é que aglutinará ou não os meios e recursos para concretizar o que se busca. “Ora et labora", como legou Bento de Núrcia (conhecido pela alcunha de “São Bento"), continua sendo a maneira mais inteligente de integrar mente, espírito e corpo para que as coisas aconteçam.

Estou cada vez mais afastado das religiões institucionais. Gosto, pelo conforto emocional, de pensar que há um design inteligente que resultou no projeto chamado Universo. Mas, se há espaço para uma divindade na minha existência, ela é panteísta. Acho deus nas folhas das árvores e nas gotas da chuva, na minha unha e no sorriso do Lúcio, na força do trovão e na aparente paz do campo, mas não o procuro em altares, catedrais ou nas páginas da bíblia, por estar convicto que lá só encontro as paixões humanas em suas angústias. Esse deus no qual acredito, não exige crença, não exige hierarquias, não exige nada pois é tudo sem ser “algo”. Só consigo acreditar em um deus que ignore minha existência, que esteja afastado das religiões, seus sacerdotes e seus crentes.

Se essa divindade me dá conforto emocional, o conforto intelectual é proveniente de um agnosticismo que cada vez mais aperfeiçoa meu olhar crítico. Deleito-me com Bertrand Russell em seu “Por que não sou cristão”: nunca é demais lembrar que até pouco tempo atrás na nossa história, cristãos se matavam uns aos outros em nome de suas concepções sobre Deus e Jesus. Ou por diversão mesmo - pão e circo desde os antigos romanos…

Sempre é bom questionar a utilidade das igrejas nos dias de hoje. É necessário cuidado pois ao menor cochilo, os religiosos impõem sua visão de mundo nas leis civis pois nunca é suficiente viver de acordo com suas crenças – sempre querem impor suas crenças a todos. Discutir com quem usa como “arma” a bíblia passa a ser enfadonho, pois nunca se busca uma tal de lógica sem ser circular, viciada. E muitos dos religiosos que conheci, salvo honrosas exceções, são hipócritas pois costumam escolher as leis que seguem, seja na igreja ou fora dela.

Bem, com tudo isso, dá para sentir que estou me subordinando cada vez menos às comemorações de Natal. Não vou entrar na discussão do consumo, chega… Neste ano nem estou respondendo aos votos recebidos – agradeço de coração e profundamente às pessoas Irmãs e Amigas que lembraram de mim e da minha família; respondo aqui com um sincero “vivam bem”. Não preciso de datas marcadas no calendário para desejar o bem de quem gosto. Antipático, eu sei, mas, sincero e conceitual. Viemos passar o feriado na colônia de férias da Associação dos Oficiais da PM em Serra Negra; no jantar do dia 24/12, o cantor pediu a todos que se levanatssem, dessem as mãos e entoassem juntos o “pai nosso". Ficamos apenas eu, Denise e Lúcio sentados; quero passar ao meu filho a convicção de que devemos agir de acordo com nossos valores (ou falta de) e não de acordo com o que esperam ou desejam de nós. Autonomia. Elaboração interna. Reconstrução individual que não cessa.

Quanto ao ano novo, essa “data marcada” também está cada vez mais sem significado. Para quem quer alternativas bem melhores que aquela ediçãozinha da Veja com os fatos que marcaram o ano, sugiro a leitura da versão em português do The Economist, editada pela Carta Capital. Ela não faz retrospectiva, mas, aponta as tendências para 2009.

Três términos:

Terminarei este 2008 sorridente, pela vida que atravessa as dificuldades e pelos problemas que surgem e se vão, sempre deixando algo de aprendizado e de conquista – toda vitória e toda derrota nos fazem crescer pois o importante, repito, é o meio e nunca o fim…

Terminarei esta noite de Natal com um “puro habano” Montecristo número 2 e água da “Fonte dos Italianos", em Serra Negra, indicada para problemas renais e hepáticos, o que com certeza aliviará o Red Label de ontem….

Terminarei este post com o bardo português, sempre uma excelente pedida:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” - Fernando Pessoa

Link permanente 25.12.08 22:26:04 , by laurofab Email , 174 visualizações, Escritos Irrelevantes, 6 comentários »Envie um trackback »

Médicos e lixeiros - dois lados de uma só consternação

Alguns dias atrás, na Folha de São Paulo, entrevistaram um rapaz que faz Mestrado em Ciências Sociais na USP. Ele resolveu, para sua dissertação, trabalhar meio-expediente como gari nas ruas de São Paulo. Ele não se “escondeu” dos demais lixeiros, ou seja, ao chegar no grupo, disse a que veio. Olharam-no com desconfiança. Um dos garis pegou uma latinha de refrigerante no lixo, cortou-a, colocou café, tomou um gole e ofereceu a ele, que de pronto, tomou. Assim, venceu a desconfiança. Sabiam que ele não era “um deles", mas, sabiam que ele estava “com eles".

Choque teve o rapaz dias depois, quando foi na USP vestido como lixeiro. Ele experimentou a agonia de ver que professores e amigos passavam por ele sem notá-lo. Ele adquiriu invisibilidade por estar com uniforme de gari e uma vassoura. Ali, na Academia, ele apesar de ser “um deles", não foi nem percebido “por eles” - quanto mais “com eles". Só se precisassem limpar algo, claro…

Esse relato manifesta o desprezo pela existência “daqueles” que não são do nosso nível. Simplificando, é assim: menosprezamos com o despeito aqueles que estão “acima", menosprezamos com a invisibilidade aqueles que estão “abaixo". Casa Grande e Senzala em suas eternas tensões dialéticas…

Tenho dúvida - e corro o risco a tê-la - se o auxílio para os desabrigados de Santa Catarina seria tão intenso se não mostrassem a classe média perdendo as moradias e tendo fome junto com as classes mais pobres.

Ontem, conversando com um Pediatra durante uma consulta do Lúcio, fiquei sabendo que há 31 anos atrás, quando ele iniciou a residência em Pediatria, esta era uma das mais disputadas. Hoje, existe um total desinteresse pela especialização pediátrica, o que provocará diminuição de vagas não só na especialização como nos leitos infantis nos hospitais - pelo menos nos públicos. Perguntei qual a especialidade mais procurada. Cirurgia plástica, claro. Uma das preferidas é a dermatologia, mas médicos que não sabem identificar uma sarna - conhecem aplicação de botox.

Da invisibilidade social à busca de retorno rápido nas escolhas profissionais, nossa modernidade caminha liquidamente (*) sem brilho, escravizada e inerte. São duas das faces de um pesado poliedro que carregamos - como quase tudo, sem saber ao certo porquê, para quê e até quando. Mas é uma consternação saber que nossas gerações atuais, numa das maiores cidades do mundo, são capazes (?) de esquecer amigos e crianças em prol de motivações que não podemos denominar “valores". E depois dizem que Marx estava errado…

(*) Valter Sérgio Abreu, Delegado de Polícia, homem da lei afeto à Cultura, indicou-me Zygmunt Bauman em uma reunião que fazíamos num belo museu… “Globalização” e “Modernidade Líquida” são livros que valem a pena ser lidos… obrigado, Dr., pela dica…

Link permanente 05.12.08 03:58:13 , by laurofab Email , 377 visualizações, Escritos Irrelevantes, 5 comentários »3 trackbacks »

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