As peças que a vida nos prega
A gente vai vivendo um dia depois do outro, sem se dar conta dos propósitos que existem por trás das casualidades. Não podemos negar que há um propósito. Ninguém cresce e se desenvolve quando tudo vai muito bem. Os conflitos nos fazem abrir mais olhos em “semi-sono” [termo emprestado de João Guimarães Rosa] e refletir em como sair da pior enrascada dos últimos tempos…
Só estou tentando dizer, caros, que diferente do que ocorre com a minha cadelinha, minha alegria precisa de muito mais de que um petisco ou de um agrado no cocoruto, gente que sou… Conviver com semelhantes - nem tão semelhantes assim - nos expõe a situações muito complicadas… Temos que perdoar e deixar passar o que há de engano para sermos completos, ou pelo menos para tentarmos sê-lo, ainda que em silêncio.
Já a minha prima fala pelos cotovelos… A completude vem com a enxurrada das palavras. Ela sente que os sentimentos sufocam e precisa colocar partes de sentimento pra fora. Algumas outras criaturas escutam, cantam, reproduzem e enviam músicas. “Ah! Essas porta-vozes!” Elas são ótimas, porque não nos conhecem por dentro, mas nos invadem de maneira maciça e genuína. Vestem nosso espírito mas não nos comprometem, já que nem fomos nós quem dissemos aquilo tudo…
-Eu? Eu nunca disse isso para você!!! Cê tá doida? - ou senão - Nunca quis dizer nada disso. É só uma canção…
E há canções que dizem pluralidades multifacetadas, como são os nossos sentimentos. Sim, porque nossos sentimentos são cubisticamente recortados e variam com nosso estado de espírito: Se estou carente, sentimentos são assim… Se você fez o que eu queria, sentimentos são assado… O que vale são os eus nos meus momentos, egocentricamente…
Enquanto isso,vão e vem as reflexões e uma vida é gerada dentro de mim. Não dá pra ser egoísta agora.
As músicas que soam por aqui são as de caixas de música, entremeadas à expectativa de conhecer o rosto da minha filha. Esse som, aos meus ouvidos, é único e mágico. Minha filha é fruto de um amor intenso, mesmo que estranho porque diferente de todo o convencional, e vem Clara por causa disso.
Tenho uma família com cachorro. Tem alguma canção que fale sobre isso?
E o cão rolava...
Voltava da psicóloga naquele dia. Mil idéias zunindo na cabeça: “Deveria ter dito isso", “Que sacanagem!", “Ah, mas tem volta", afinal a vingança é um prato que se saboreia frio…
No batmóvel, acompanhada de um saquinho de biscoito palmier - afinal toda angústia vem junto com um biscoitinho - avistei um cachorro bem felpudinho sem noção de perigo. O bicho brincava com uma bola de meia… Ué… Mas não são os gatos que praticam esse tipo de esporte? Enfim, o fato é que aquele floco de algodão bege e imundo rolava junto ao meio fio, ali, sentindo o vento dos automóveis lhe soprando as ventas, enquanto se divertia com seu brinquedo parco…
Sabe o que ele fez? NADA!
Às vezes, a gente é que complica a vida…
O número 2 só vem depois do 1...
UM ESPELHO ÀS VEZES TURVO é o caminho para conhecer a outra face de Fabi…
Fransmar, o anfitrião, afirma com veemência que meus textos podem, também, ser dramáticos…
Sabe o que eu acho, antes de mandá-lo lamber sabão? Acho que ele tem razão… Pode ser que seja o gene XX.
As mulheres são isso aí mesmo: Quando não falam demais, choram demais. E pior, aproveitam os intervalos para reclamarem no ENQUANTO!
Contudo, afirmo: Somos um mal necessário.
Beijos a todos
E quem não leu Monteiro Lobato?
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Passeio de paulista é Shopping Center… Não há uma criatura que não queira praticar uma maratona, ainda que de bolsos vazios, dando um rolezinho pra checar as tendências de modas e costumes… É bom também para cultivar laços de amizade, semear os vínculos, regá-los com boas e sonoras gargalhadas…
Luís Fernando Veríssimo ensina que para uma boa crônica, basta que se observe os arredores. Não esperava que pudesse, já no estacionamento, ser surpreendida pelas minhas reminiscências de infância. As lembranças foram acessadas do mais abissal arquivo mnemônico… Caramba! Há quantos anos… O cérebro humano é capaz de mirabolâncias…
Saindo do caixa eletrônico, logo na entrada do Shopping, saía a personificação de uma vassoura de piaçava… De óculos redondos, envergadura pronunciada pela magreza, depois de muitos minutos de trabalho no quiosque do banco, saía uma mulher entre loura escura e ruiva. Quem era o filho de puta que tinha pintado o cabelo daquele ser? Cabelo? Que cabelo? Fico imaginando que qualquer pessoa, antes de deixar o recanto do lar, arrume-se, acreditando que, depois de se olhar no espelho, tenha ficado legal assim… Ô, meu Deus…
De meu amigo de boas bobagens, companheiro de almoço naquele dia, escapou:
- Você já leu Monteiro Lobato? – e se seguiu, na minha mente, imediatamente o personagem que ele estava querendo evocar.
Já surgiu em minha cabeça a imagem do boneco de milho, vestido em collant cor de palha e vários grãos de milho salpicados no modelito. Collant por cima da calça pula brejo. Óculos redondinho de boneco, mostrando a intelectualidade do personagem, que, de longe, era muito distinta da figura que abandonava o caixa eletrônico. Continuou para não permitir que a figura se esvaísse das mentes em sintonia: a minha e a dele:
- VISCONDE DE SABUGOSA!!!
É verdade… Isso era o tal Visconde e, ao mesmo tempo, todas as lembranças da minha infância… É… Todas as bonecas que eu tive vinham com os cabelos lisos. Passados alguns dias, viravam o verdadeiro ninho de mafagafos… Só a Barbie da minha prima mais endinheirada, uma boneca vinda da França, tinha incansável cabelo liso… Não sei por que a indústria de brinquedos permite que os cabelos das bonecas fiquem assim. Crueldade com as crianças, as quais compram a Barbie com o seguinte merchandising : Barbie, tudo o que você quer ser… Eu que não queria ter aquela peruca.
Sou adepta das chapinhas e das hidratações. MAS. Se for para ter cachos, que se valorizem as ondas. As mulheres deveriam assumir seus cabelos. Se crespos, crespos. Se lisos, lisos. O que não vale é passar a escova de manhã nos cabelos encaracolados imaginando que vão virar um lisume só e fazê-los, por fim, virarem o verdadeiro balaio de gato.
Vamos ser o que somos e acatar as diferenças que cada um de nós possuímos. São as diferenças que nos fazem únicos, individuais e intransferíveis nós em nós mesmos.
Aceito o convite...
Para inaugurar o espaço, para o qual fui glamurosamente convidada, publico um texto muito compatível com a problemática social que abraça a nossa contemporaneidade…
OS EFEITOS DA MÁ VONTADE
-Doutor, tenho sentido um mal estar dos diabos… Um embrulho no estômago, a boca seca, uma certa cãibra no mindinho…
-Virose – com os olhos voltados para o receituário e a caneta deslizando em hieróglifos medicinais. - É possível que nas Faculdades de Medicina haja a descaligrafia fazendo parte da grade curricular…
Virose, virose. Soava a palavra ecoando mil vezes virando pesadelo… Virose… É sempre essa a resposta para aquilo que a medicina não consegue diagnosticar e para o mal que precisa ser necessariamente detectado. Ai daquele doutor que não chega a um veredicto ao cabo da consulta, ainda mais se não é coberta pelo plano de saúde pago há 923 anos!!! Paciente é coisa séria. Doença, então, nem se fala… Como é sério!!! Podemos morrer de cãibra , com os dedos do pé repuxados levando o dedão ao Japão e espalhando os outros dedos pelo resto da topografia mundial.
O tempo é implacável. Dessa vez, Vovó visitava o oftalmologista. Tinha sido acompanhada por papai, o Sherlock Holmes dos acontecimentos mundanos. Para papai, a vida era uma seqüência de mistérios, todos eles a serem desvendados segundo a segundo. “Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que sonha a nossa vã filosofia"…
A catarata ia minando a vista da velhinha e ela já não enxergava mais as matizes com a mesma intensidade. Não era possível ser feliz assim, sem cores, sem nada… “Havia muito o que ver e viver". Era isso que dizia minha fofa enrugando a sobrancelha desenhada no kajal dos olhos enrugadinhos. “Vou até 100 e não faço desconto!” Nunca é tarde para enxergar coisas que os olhos já tinham visto centenas de vezes. Ver e enxergar era o que fazia a diferença naquele momento de sua jornada…
Foi nesse contexto que estavam os três mergulhados: vovó, papai e o doutor Sei Lá.
Impelido pelo maior número de consultas possível e pelas cifras pagas miseravelmente pelas empresas de Plano de Saúde no final do mês, Doutor Sei Lá queria ser eficiente e acabou se tornando burocrático…
- A senhora tem um problema de catarata e precisa ser operada. O procedimento é simples e pode ser resolvido rapidamente. Marcamos vários exames e então podemos seguir com a intervenção cirúrgica. Na seqüência vamos ver o que fazemos com a vista cansada da senhora.
Papai, estando no consultório, aproveitou a carona para investigar um pouco sobre algo que não conhecia de todo. Mania de engenheiro curioso e detalhista:
- Doutor, tecnicamente, o que é vista cansada?
- Vista cansada é – olhos fitos no formulário do Plano de Saúde, impassível na expressão frente à indiferente pergunta – quando a pessoa tem mais de 40 anos e fica com a vista cansada…
“Ah… Não me diga… Foi essa a descoberta mais recente e inédita de toda a História da Medicina Universal. Está aí a personalidade que fatalmente desbravara caminhos para o início da descoberta para a cura do Câncer… Faça-me um favor…” Foi crescendo um rubor por dentro do patriarca, inflando as bochechas e engrossando a língua. Boca seca mastigando possível resposta.
……………………Silêncio………………………..
O bocudo do meu pai podia ter virado a mão na cara daquele lá… No entanto, segurou os dedos fechados de forma firme num soco latente que não aconteceu. A mão chegou a formigar e a respiração ficou forte e descompassada. O suor escorrendo pela testa. Que cara filha da puta!
Vovó, de cara amarela e com a boca que não conseguia fechar porque a cara ia crescendo na situação, foi empurrando a cadeira com as pernas na saia e esticou o braço para alcançar a bolsinha de pedra a fim de guardar a receita médica e os pedidos do exame.
Dirigiram-se até a porta e a indignação aos socos com o pouco caso ficaram se debatendo no consultório, enquanto a recepcionista chamava o nome do próximo paciente…




