Quem tem medo de São Paulo?

Decidi aderir ao dia mundial sem carro. Apesar de trabalhar próximo à minha residência, optei pelo transporte público, ônibus, para ser mais exato. Por conta disso, precisei sair de casa mais cedo do que o habitual. Por se tratar de um dia atípico na vida dos paulistanos, eu imaginei que talvez eu sofresse um pouco mais com o trânsito e o burburinho de usuários do sistema público de transporte – ledo engano. Sofrimento com trânsito tem quem vive em Caparaó do Norte, eu tive agonia inteeeeeeeeeensa!!!!!!!!!!! Gente se acotovelando nos pontos, se estranhando, ônibus lotados, grávidas desmaiando… Dentro do ônibus e após quarenta minutos de viagem (normalmente de carro eu levo quinze minutos) e ainda na metade do caminho, o ônibus quebra! Nesse momento eu imaginei que ia morrer. Mais trabalhadores aglomerados assim eu só vi na primeira comuna de Paris, em 1871. Homens, mulheres, crianças e velhos, todos se esfregando e tentando desesperadamente sair de um ônibus ao mesmo tempo. E o que mais me revolta é que senti pelo menos umas vinte mãos roçando minha bunda!
Decidir continuar minha caminhada a pé. Nesse dia, cheguei uma hora mais tarde na empresa. Ainda bem que saí de casa uma hora mais cedo…
Minha esposa me convenceu que isso fora apenas um dia de azar e que essas coisas não acontecem sempre, que eu deveria optar por um meio de transporte ecologicamente correto e não desanimar. Reanimado com palavras tão afetuosas, decidi utilizar novamente o transporte público de massa (e que amassa…) – mas dessa vez escolhi o metrô. Infelizmente, e obviamente por acaso, hoje ocorreu um incêndio no metrô, fato esse que atrasou em quase duas horas minha chegada ao centro da cidade de São Paulo.
Apesar de tudo isso, fedendo a fumaça, totalmente amassado e sabendo que meu querido carro estava guardado na garagem da minha linda casa, eu ainda tive forças para cantarolar Caetano Veloso:

“Alguma coisa acontece no meu coração… Só quando cruzo a Ipiranga com a Avenida São João…”
Acontece mesmo. É o infarto que fulmina meu coração…

por Andre Moreira
23.09.09. 20:44:02. 362 palavras, 538 visualizações. Categorias: Não categorizado , Deixe seu comentário »

Entrevista

- Oi, boa tarde… Eu tinha uma entrevista marcada…
- Pode entrar. Você é o candidato das 15:00? Você está um pouco atrasado não acha? Detesto homens que atrasam… Isso é um aspecto negativo muito relevante…
- Sim, sou eu… É que eu tive problemas com o metrô…
- Metrô? Você veio de metrô? No anúncio que publiquei, eu disse que carro próprio era impreterível!
- É que hoje é meu rodízio…
- OK, ok, vamos ao que interessa. Qual é seu nome?
- João da Silva.
Bem João, vejo que apesar de um pouco desorientado, você é um homem muito bonito… Acho que nossa entrevista pode ser muito produtiva… Me fale um pouco sobre você.
- Bom, tenho vinte e oito anos, formado em Administração e trabalho num banco há cinco anos. Moro sozinho, minha casa é própria e troco de carro em média á cada três anos…
- Muito bem João! São aptidões bem interessantes… O que você gosta de fazer nas horas de lazer?
- Ah, gosto de ouvir rock´n roll, jogar futebol e tomar uma cervejinha nos finais de semana…
- Tudo bem, um pouco de lazer não faz mal a ninguém… E vem cá, você fuma? Um dos pré-requisitos para a vaga é que o candidato seja não fumante…
- Hum, que bom, parei de fumar!
- Hum, que pena João… Também não aceito ex-fumantes… Sabe como é, ex-fumantes têm 50% a mais de chance de sofrer um ataque cardíaco antes dos 50 anos… Não posso correr o risco de ficar sozinha nessa idade…
- Oras! Mas afinal de contas, o que você oferece de tão interessante para essa vaga?
- Bem, além da minha ótima companhia, estou oferecendo um plano de carreira interessante: Você inicia como namorado, podendo ser promovido a noivo em um prazo de três a cinco anos. Dependendo de seu desempenho pode ser tornar sócio vitalício e exclusivo através de um sistema inédito de parceria chamado matrimônio. E isso tudo em no máximo sete anos!
- E se não der certo?
- Não se preocupe bobinho. Atualmente matrimônio é contrato de risco… Se não funcionar você pode rescindir contrato… É só pagar uma pequena multa rescisória para a parceira…
- Hum, não sei não. Acho que isso parece golpe… Tem mais alguma vantagem?
- Se você for aprovado para a vaga, ofereço algumas vantagens extras: contato flexível por telefone durante a semana e encontros formais apenas nos sábados e domingos, mas isso pode ser definido durante a fase de avaliação que eu chamo tecnicamente de namoro. Além disso, você terá uma vantagem extra, pois não terá sogra, já que minha pobre mãezinha faleceu há algum tempo…
- Uau! Sem sogra… Acho que tenho interesse na vaga… Há mais alguma etapa no processo seletivo?
- Sim, eu tenho mais currículos e candidatos para analisar. Em seguida, vou convocar individualmente os pré-aprovados para um encontro mais informal, talvez a luz de velas, e por conta do candidato, claro… E se ele for aprovado nesse encontro, imediatamente haverá outro encontro, algo parecido com um teste de desempenho, algo meio físico, meio químico… E se finalmente o candidato for aprovado nesse teste, o início será imediato!
- Ah, ok… Eu tenho alguma chance?
- Claro que sim querido! Você tem alguns defeitinhos, mas que homem não tem? Só uma coisa: Você foi indicado por alguém?
- Sim, foi o Armandinho que me falou de você e do anúncio…
- Ai… o Armandinho… Pedaço de mau caminho… Vem cá, ele tá solteiro ainda?
- Não… Casou há seis meses…
- Ah… Mas tudo bem… Olha pode ficar tranqüilo que eu confio na recomendação do Armandinho, viu? Ele tem um taco infalível pra certas coisas!
- Que bom! Quer dizer que eu tenho chances?
- Ah, não se preocupe! Se você não for aprovado, pode tentar novamente a vaga daqui a seis meses!

por Andre Moreira
30.06.09. 08:05:11. 692 palavras, 222 visualizações. Categorias: Não categorizado , Deixe seu comentário »

Aspirinas e Médicos

Alguns sabem, mas outros não, nasci numa viatura da Polícia Militar. Pra ser mais exato num fusca. Começou aí minha obsessão pelo veículo que psicanaliticamente falando (pelo amor de Deus, alguém sabe se essa maldita palavra existe?) representa minha busca constante por estabilidade. Busca essa que é uma contradição em si mesma, uma vez que o fusca não oferece estabilidade nenhuma, mas enfim, essa questão eu deixo para outro dia. Depois desse incidente, visitei médicos apenas na ordem de uma vez a cada dez anos. Eu também acredito naquela teoria de que quanto menos procuramos, menos corremos o risco de achar alguma coisa errada.
Pois bem, há cerca de uns trinta dias, decidi fazer minha visita da década ao médico. Pedi uma série de exames detalhados. Fiz todos os exames rigorosamente, de exame de gravidez a teste do pezinho… Quer dizer, quase todos, exceto o de fezes. Isso é uma coisa nojenta demais! Eu não entendo, como poderia caber uma coisa tão… Bom, deixa prá lá. Para meu alívio todos os exames estavam OK. Todos, menos um: Na chapa de pulmão apareceu uma mancha. Coisa boba, do tamanho de uma ervilha, em cima do pulmão esquerdo. Como disse, quem procura, acha. Isso me preocupou bastante, não sou médico, mas foi o suficiente para que eu fizesse uma série de diagnósticos: entupimento da aorta, câncer de pulmão, isquemia… Imaginei as mais variadas respostas para aquela mancha, como seria o tratamento, e se eu morresse? E as coisa que não vi nem vivi? Eu ainda preciso ir pra Espanha correr com os touros, participar da corrida do queijo na Inglaterra, eu ainda não realizei metade do que queria! Tudo isso passou pela minha cabeça… Eu só retornaria ao médico em duas semanas e essas questões corroeram minha alma nesse período. Passadas as duas agonizantes semanas encontrei-me com o médico. Rigorosamente ele analisou exame por exame, questionou a ausência do exame de fezes e eu expliquei a problemática logística que eu causaria tentando deslocar o exame da minha casa até clínica, ou ainda o caos odorífico que seria se eu tivesse produzido o material do exame na própria clínica. Ele preferiu não retrucar e continuou analisando os exames. Viu um por um, meticulosamente até que ele chegou na chapa. Olhou pra ela, olhou pra mim e eu pensei: “Pronto, f****!”
– Você fuma? – Perguntou o médico?
– Não Doutor…
– Então continue assim e você vai viver até os cem anos! Está tudo bem com você.
– Que bom… Mas e essa manchinha na chapa, em cima do pulmão esquerdo?
– Nada não, vai embora. (Eu adoro médicos, eles são um modelo de educação…)
Bem, eu fiz o que o médico pediu. Se tudo correr bem, daqui a dez anos eu procuro uma segunda opinião. Como diria Freud, às vezes uma mancha é só uma mancha.

P.S.: Se um dia você precisar fazer uma chapa do pulmão, saiba que se você tem o hábito de usar gargantilhas, pingentes ou medalhas, é necessário tirá-las senão pode aparecer na chapa… Para bom entendedor, meia palavra basta…

por Andre Moreira
01.04.09. 11:00:25. 558 palavras, 310 visualizações. Categorias: Não categorizado , 4 comentários »

A parábola do fusca

Sexta-feira de madrugada, quatro amigos dentro de um fusquinha azul: Um teólogo protestante, um historiador, um filósofo e um especialista em tecnologia. Lá pelas três da manhã, o fusca para no meio do nada, indo em direção a lugar nenhum. Soluções propostas por cada um dos amigos para se resolver o problema:
TEÓLOGO PROTESTANTE: “Amigos e irmãos, aproveitando esse momento de angústia, peço-vos que curvem suas cabeças e orem comigo ao Altíssimo rogando pela cura do pobre fusca… Em seguida, antes de recolhermos as ofertas, abram todos os seus hinários no cântico 523…”
HISTORIADOR: “É óbvio que se considerarmos o processo cíclico de redundância ensaiado por Nietzsche na Alemanha pré-industrial do século XVIII, poderemos perceber que o fato desse veículo ser do período nazista e do século passado, cumpre o seu papel na perplexidade côncavo-complexa, cunhada desde os primórdios do início da dominância Oto-germânica fazendo com que seja inútil qualquer tentativa de colocarmos o bólido em movimento outra vez…”
FILÓSOFO: “O Fusca parou? Essa questão do funcionamento é muito relativa… ou não… Aliás, isso me lembra um ensaio escrito por Jean Paul Sartre em 1972 no qual ele faz uma tratativa semiótica da relatividade cinética entre Descartes e Platão… Pena que o texto ficou lá em casa, senão esse seria um bom momento para treinar o meu francês…”
TECNÓLOGO: “E se a gente desligar tudo, tirar a chave do contato, apagar as luzes, sair do carro, trancar as portas, contar até 30? Depois a gente volta pra dentro e reinicia o carro…”
MORAL DA HISTÓRIA:
Deus pode conduzir a sua vida, você pode saber o seu lugar na História, entender a profundidade complexa da alma Humana, dominar as mais modernas tecnologias existentes no mercado, mas se sair de fusca às três horas da manhã sem um amigo mecânico, você está na merda!

por Andre Moreira
20.03.09. 17:47:07. 338 palavras, 143 visualizações. Categorias: Não categorizado , 3 comentários »

O homem de Deus

O homem de Deus está ébrio sem vinho
O homem de Deus, saciado sem pão.
O homem de Deus está apaixonado, arrebatado.
O homem de Deus não come nem dorme.
O homem de Deus é um rei sob andrajos,
O homem de Deus, um tesouro entre ruínas.
O homem de Deus não é da terra ou do ar,
O homem de Deus não é do fogo ou da água.
O homem de Deus é um oceano sem praias,
O homem de Deus chove pérolas, sem nuvens.
O homem de Deus traz cem luas e cem céus,
O homem de Deus possui a luz de cem sóis.
O homem de Deus tornou-se sábio pela Verdade,
O homem de Deus não se fez erudito nos livros.
O homem de Deus está além da fé da incredulidade,
Para o homem de Deus, que pecado ou virtude existe?
O homem de Deus cavalgou para fora do não-ser,
O homem de Deus acercou-se com porte sublime.
O homem de Deus está oculto,
Procura e encontra o homem de Deus.

por Andre Moreira
13.03.09. 21:40:38. 182 palavras, 191 visualizações. Categorias: Não categorizado , Deixe seu comentário »

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