Arquivos para: Fevereiro 2009

Cidadania Obituária - Eleições 2008.

Algumas situações passam muitas vezes despercebidas de nossa capacidade observadora. Situações que podem, muitas vezes, nos remeter a uma reflexão transcendente da simplicidade das ações do mundo diante do exercício da função, conjuntamente à angústia do ser que, de forma desesperada exige para si imediata atenção e, talvez, fosse melhor conter seu ensejo esclarecedor em proveito dos comentários pejorativos promulgados pelo próximo.
Tais situações caem no esquecimento por razões muitas vezes desconhecidas. Mas é claro, sempre existe a “volta às aulas” e os alunos fazem questão de lembrar este autor da maior parte dos desaforos que vivenciamos muitas vezes juntos, em circunstâncias deveras adversas daquela vivência rotineira da sala de aula. Explico:

Um aluno muito tímido, daqueles que te encontram em um corredor de trinta metros com a plebe vazando pelo ladrão e gritam do extremo oposto - PROFESSOOOOOOOORRRRRR…. – iluminou minha memória com a reminiscência do seguinte ocorrido.

Estava eu devidamente convocado pela minha diretora escolar para prestar auxílio e possível socorro ao serviço público que, em virtude do cumprimento de tão ilustre dever pátrio, não poderia passar sem a colaboração de minha egrégia pessoa. Assim, fui conclamado às pressas para trabalhar nas eleições municipais de 2008. Como o TRE já houvera se encarregado da convocação de todos os “voluntários” para que o pleito fosse levado a termo, a escola pediu que este que vos escreve contribuísse com seus préstimos na sessão de justificativa de votos.

Estava lá o neto do Cel. Hipólito (mais por poder sertanejo do que por patente), justificando o voto dos eleitores perdidos no espaço – pois se estivessem no lugar correto não precisariam justificar nada – quando surge o pai de um aluno que resolve, além de incumbir-se do propósito óbvio, trocar dois dedinhos de prosa com o famoso professor de seu pimpolho.

- Mas menino, você sabe que filosofia é a única matéria que ele gosta. Ele até lê!

É claro que, não é todo dia que surge um pai elogiando seu trabalho e ainda mais confirmando que o filho seja leitor de alguma coisa por motivação sua. Não consegui suprimir o pecado do orgulho e acabei dando uma atenção exagerada – não compatível com minhas funções naquele momento, admito – ao distinto senhor.

Nisto, a fila vai aumentando, uma turba de cidadãos ansiosos pelo cumprimento do dever cívico começa a se aglomerar diante da minha mesa e, com certa razão, começa a se irritar.
Uma senhora muito bem vestida – note-se, minha sessão eleitoral está locada em uma comunidade absolutamente carente, onde normalmente apresentam-se senhoras obesas com cara de “tia velha” trajando uma bermuda aproveitada de uma calça de moleton de “cotton”, uma camiseta regata de “viscose” azul tampinha de garrafa da Lyndoia, uma sandália havaiana soltando as tiras e uma exibição hidrográfica da amazônia brasileira nas panturrilhas que são chamadas geralmente de “varizi” – observe o leitor que não digo isto para diminuir a dignidade da comunidade na qual trabalho mas é interessante perceber que as pessoas simples, e neste caso a maioria delas solícitas a minha solidão e indignação de ter que trabalhar como um “voluntário” em pleno domingo contra minha vontade, começam a conversar entre si, trocam umas receitas de “pão de camada”, entram na conversa alheia e, da fila mesmo já estavam até palpitando sobre a educação do filho do distinto senhor que, não canso de repetir, motivado pela minha matéria até lia alguma coisa. Mas dizia que, uma senhora muito bem vestida, usando um vestido básico bem ornado, com o cabelo todo arrumado e preparado para a possibilidade de uma tempestade tropical (como quem acabara de sair da festa do laquê), do alto de sua dignidade em um salto altíssimo, e balançando todo seu estoque de silicone com aquela cara de “bando de pobres”, sai da fila e dirige-se a minha mesinha com um título de eleitor na mão balançando em tom ameaçador; tira os óculos escuros que mais pareciam uma out-door da Gucci (lembrem-se que as placas estão proibidas!) e profere em tom autoritário:

- Mocinho! Eu preciso justificar o voto do meu marido!

Não preciso dizer que o tom de voz da espinafração da dondoca foi ouvido por toda a sessão. Interessado no caso, indaguei:

- O voto de seu marido? Mas ele precisa assinar a justificativa.

Ao que ela retribuiu:

- Mas ele faleceu em janeiro. Ele não poderá assinar.

Nisto, alguns campesinos que compunham a fila e aguardavam a furona desobstruir espaço, já tomados de certa curiosidade, começaram a esboçar um princípio de riso.
Em um lampejo de memória – sabe aquele momento em que você pensa mais rápido do que fala e, quando percebe que vai falar alguma besteira, já foi? – respondi:

- Neste caso, a senhora deve procurar um Kardec Eleitoral.

- Como?

- Um cartório eleitoral madame. Só no cartório eleitoral eles poderão justificar o voto do seu marido.

Ainda bem que o laquê deve ter obstruído as vias auditivas da distinta, que saiu pisando duro e procurando alguém do TRE para informar-se sobre o endereço do cartório mais próximo.

- Esse governo! Só faz isso para complicar a vida da gente! – resmungou enquanto saia.

Agora vai ser um parto para esquecer isto de novo.

por Fransmar
23.02.09. 09:32:03. 946 palavras, 492 visualizações. Categorias: Crônicas do Mundaréu , 4 comentários »Envie um trackback »

Arte contemporânea e música brasileira ou, como fazer um Axé.

Retornei à vida acadêmica.
Após um rápido período de afastamento motivado por atividades condizentes à ordem pública, e percebendo que não conseguiria estabelecer nenhuma ordem nesta josta – e portanto ordem pública é um paradoxo – resolvi retomar minhas pesquisas e adentrar ao curso de mestrado em uma conceituada universidade.
O contato direto com alguns professores conhecidos outrora, me fez reviver experiências saborosas das quais me afastara. Como consegui sobreviver sem este rol de debates e discussões edificantes que tanto contribuem para meu desenvolvimento epistemológico?

Fato é que, lá pelas tantas, o filho de Dona Adriana deparou-se com uma aula sui generis acerca da pertinência da arte na contemporaneidade.
Nunca fui grande apreciador da arte contemporânea. Na realidade, entendo que tal manifestação “artística” só venha a corroborar a tese defendida pelos gregos antigos que diziam ser a arte mera reprodução imperfeita das idéias transcendentais e, portanto, não possuíam valor de verdade.

Como filósofo, acredito piamente no 32º versículo do 8º capítulo do evangelho de São João. Súbito, surge um mestre que me faz observar que o explendor da manifestação artística está intimamente ligado à significação e dignificação do ente frente a um valor de linguagem.
Ué? É arte ou é linguagem? Posso até entender que muitas práticas artísticas sejam significantes, plenas de valor semântico, semiótico e fenomenológico mas, observando bem a linguagem de nossos dias fico imaginando o quão artístico e poético ela possa se mostrar.

Por exemplo, a musicalidade brasileira sempre foi uma de nossas mais sublimes manifestações artísticas. Que o digam Tom, Vinícius, Chico e outros.
Zeca Baleiro e Zé Ramalho seriam pura expressão lingüística. Ouça aqui.

Outro que merece as laudes é Arnaldo Antunes, com o clássico “Não é o que não pode ser que não é”. Pura concepção metafísica.

Mas então chegamos ao entrave da musica no século XXI, com o funk, o axé baiano, a banda Calypso (uma espécie de axé paraense com tendências técnicas a reproduzir a voz arranhada de Aretha Franklin e Bruce Springstem, com ênfase na alegria e na animação – TODO MUNDO COMIGO… ) e o pagode.

Não estou falando de samba de roda, samba propriamente dito ou o samba do malandro. Estou falando de pagode mesmo. Aquela música que o sujeito faz normalmente motivado pela inspiração do momento defecativo onde, casualmente manuseia um aparelho celular (já que dificilmente saberia ler – o que seria comum ocorrer neste momento entre pessoas cultas) e acaba mandando um torpedinho para a amada.
Talvez por este motivo, a maioria dos pagodinhos tenham em suas letras

- Me telefonaaaaa…. no celulaaaarrrrr….

- Me ligaaaaa… manda um telegramaaaaa…. uma carta de amooooooorrrrrr….

Sem contar que as melodias são praticamente idênticas. Por falar em melodias idênticas, os senhores devem imaginar como se produz uma música de Axé Baiano (O baiano, não o paraense; por mais que sejam semelhante em estilo há uma ligeira distinção cultural motivada pelo sotaque) com genialidade.

Dois indivíduos absurdamente musicalizados e favorecidos por uma rica cultura rítmica encontram-se, invariavelmente, na ladeira do Pelô (em sentidos opostos, um subindo e outro descendo) e, por questões de cordialidade, iniciam um processo de saudação civilizada. O diálogo segue, mais ou menos, nestes termos:

- Aê!
- Aê!

- Ei!
- Ei!

E após esta eloqüente conversa saem rodopiando com os indicadores apontados para o céu e cantando:

- ÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔOOooooooooo

Não tem como não chamar de artísta.

por Fransmar
15.02.09. 11:45:23. 617 palavras, 1014 visualizações. Categorias: Causos de Família - Reflexões Pessoais , 6 comentários »Envie um trackback »

Presença de Espírito

Sempre admirei a presença de espírito.
Algumas pessoas tem a sagacidade, a mente rápida e a eloquência que na maioria das vezes é a plena distinção entre a estupidez exacerbada e a genialidade.
Tenho por hábito, iniciar o curso de filosofia com algum exercício maiêutico, ou seja, diante da manifestação de algum voluntário, vou colocando uma questão sobre a outra até que alguma coisa interessante aconteça. E sempre acontece.

A coisa ocorreu mais ou menos nestes termos:

Questionado sobre “Quem” era, um aluno respondeu:

- Sou Fulano!

- Mas este é o seu nome, e seu nome não define quem você é.

- Ah professor… sou um cara legal, extroverdido, que gosta de se divertir…

- Mas aí você está me respondendo “O QUE” você é.

- Bom… então sou um ser humano, que tem livre arbítrio….

- Ahhhh… Livre arbítrio… que bonito. E o que é o livre arbítrio?

- É o que me faz saber o que é certo e o que é errado.
`
Por esta altura do campeonado, o menino já deveria estar, se não confuso, ao menos com o saco cheio. Pensei com meus botões: Agora é a derradeira.
Soltei:

- E o que é certo?

Neste momento o semblante do garoto se iluminou, porém, uma luminosidade diferente… daquelas que não se vê todo dia.

- É o que Deus escreve em linhas tortas.

Preciso dizer mais alguma coisa? Isto é presença de espírito.
Gostei do sujeito.

por Fransmar
05.02.09. 23:11:49. 252 palavras, 515 visualizações. Categorias: Causos de Família - Reflexões Pessoais , 10 comentários »Envie um trackback »