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Cidadania Obituária - Eleições 2008.
Algumas situações passam muitas vezes despercebidas de nossa capacidade observadora. Situações que podem, muitas vezes, nos remeter a uma reflexão transcendente da simplicidade das ações do mundo diante do exercício da função, conjuntamente à angústia do ser que, de forma desesperada exige para si imediata atenção e, talvez, fosse melhor conter seu ensejo esclarecedor em proveito dos comentários pejorativos promulgados pelo próximo.
Tais situações caem no esquecimento por razões muitas vezes desconhecidas. Mas é claro, sempre existe a “volta às aulas” e os alunos fazem questão de lembrar este autor da maior parte dos desaforos que vivenciamos muitas vezes juntos, em circunstâncias deveras adversas daquela vivência rotineira da sala de aula. Explico:
Um aluno muito tímido, daqueles que te encontram em um corredor de trinta metros com a plebe vazando pelo ladrão e gritam do extremo oposto - PROFESSOOOOOOOORRRRRR…. – iluminou minha memória com a reminiscência do seguinte ocorrido.
Estava eu devidamente convocado pela minha diretora escolar para prestar auxílio e possível socorro ao serviço público que, em virtude do cumprimento de tão ilustre dever pátrio, não poderia passar sem a colaboração de minha egrégia pessoa. Assim, fui conclamado às pressas para trabalhar nas eleições municipais de 2008. Como o TRE já houvera se encarregado da convocação de todos os “voluntários” para que o pleito fosse levado a termo, a escola pediu que este que vos escreve contribuísse com seus préstimos na sessão de justificativa de votos.
Estava lá o neto do Cel. Hipólito (mais por poder sertanejo do que por patente), justificando o voto dos eleitores perdidos no espaço – pois se estivessem no lugar correto não precisariam justificar nada – quando surge o pai de um aluno que resolve, além de incumbir-se do propósito óbvio, trocar dois dedinhos de prosa com o famoso professor de seu pimpolho.
- Mas menino, você sabe que filosofia é a única matéria que ele gosta. Ele até lê!
É claro que, não é todo dia que surge um pai elogiando seu trabalho e ainda mais confirmando que o filho seja leitor de alguma coisa por motivação sua. Não consegui suprimir o pecado do orgulho e acabei dando uma atenção exagerada – não compatível com minhas funções naquele momento, admito – ao distinto senhor.
Nisto, a fila vai aumentando, uma turba de cidadãos ansiosos pelo cumprimento do dever cívico começa a se aglomerar diante da minha mesa e, com certa razão, começa a se irritar.
Uma senhora muito bem vestida – note-se, minha sessão eleitoral está locada em uma comunidade absolutamente carente, onde normalmente apresentam-se senhoras obesas com cara de “tia velha” trajando uma bermuda aproveitada de uma calça de moleton de “cotton”, uma camiseta regata de “viscose” azul tampinha de garrafa da Lyndoia, uma sandália havaiana soltando as tiras e uma exibição hidrográfica da amazônia brasileira nas panturrilhas que são chamadas geralmente de “varizi” – observe o leitor que não digo isto para diminuir a dignidade da comunidade na qual trabalho mas é interessante perceber que as pessoas simples, e neste caso a maioria delas solícitas a minha solidão e indignação de ter que trabalhar como um “voluntário” em pleno domingo contra minha vontade, começam a conversar entre si, trocam umas receitas de “pão de camada”, entram na conversa alheia e, da fila mesmo já estavam até palpitando sobre a educação do filho do distinto senhor que, não canso de repetir, motivado pela minha matéria até lia alguma coisa. Mas dizia que, uma senhora muito bem vestida, usando um vestido básico bem ornado, com o cabelo todo arrumado e preparado para a possibilidade de uma tempestade tropical (como quem acabara de sair da festa do laquê), do alto de sua dignidade em um salto altíssimo, e balançando todo seu estoque de silicone com aquela cara de “bando de pobres”, sai da fila e dirige-se a minha mesinha com um título de eleitor na mão balançando em tom ameaçador; tira os óculos escuros que mais pareciam uma out-door da Gucci (lembrem-se que as placas estão proibidas!) e profere em tom autoritário:
- Mocinho! Eu preciso justificar o voto do meu marido!
Não preciso dizer que o tom de voz da espinafração da dondoca foi ouvido por toda a sessão. Interessado no caso, indaguei:
- O voto de seu marido? Mas ele precisa assinar a justificativa.
Ao que ela retribuiu:
- Mas ele faleceu em janeiro. Ele não poderá assinar.
Nisto, alguns campesinos que compunham a fila e aguardavam a furona desobstruir espaço, já tomados de certa curiosidade, começaram a esboçar um princípio de riso.
Em um lampejo de memória – sabe aquele momento em que você pensa mais rápido do que fala e, quando percebe que vai falar alguma besteira, já foi? – respondi:
- Neste caso, a senhora deve procurar um Kardec Eleitoral.
- Como?
- Um cartório eleitoral madame. Só no cartório eleitoral eles poderão justificar o voto do seu marido.
Ainda bem que o laquê deve ter obstruído as vias auditivas da distinta, que saiu pisando duro e procurando alguém do TRE para informar-se sobre o endereço do cartório mais próximo.
- Esse governo! Só faz isso para complicar a vida da gente! – resmungou enquanto saia.
Agora vai ser um parto para esquecer isto de novo.
23.02.09. 09:32:03. 946 palavras, 498 visualizações. Categorias: Crônicas do Mundaréu , 4 comentários » • Envie um trackback »
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4 comentários
Mas, enfim, parabéns pelo comentário singelo... eu teria, mais uma vez, tido um acesso de riso que me deixaria incapaz de justificar até mesmo a minha saída do colégio.
Nada que a ironia socrática não nos ensine.
Não sei se é adequado o termo singelo.... hehehehhe
mas que foi no mínimo engraçadinho, ah isso foi.




